Uma nova perspectiva sobre os três séculos de escravidão no Rio de Janeiro está sendo trazida à luz pelo arquiteto e historiador João Carlos Nara Jr. Sua pesquisa revela um aspecto pouco discutido: as visitas de saúde realizadas nos navios negreiros que chegavam à cidade, carregando africanos escravizados. Documentos históricos mostram que, em uma dessas viagens, 46 pessoas morreram devido ao que era chamado de “banzo”, um termo que denota uma profunda melancolia e sofrimento, mas que pode também esconder outras causas relacionadas às condições precárias das travessias.
O foco da pesquisa de Nara Jr. é seu novo livro, “Corpos em Trânsito: Visitas de Saúde em Navios Negreiros (1791–1830)”, que foi lançado recentemente e ainda está disponível apenas em eventos, com planos para uma distribuição mais ampla no futuro. Ele destaca que essas inspeções sanitárias tinham como prioridade a proteção da saúde pública da cidade, sem real preocupação com o bem-estar dos escravizados. “Era mais uma defesa da cidade e do mercado do que um ato de cuidado”, afirma o autor, que é servidor da UFRJ e membro do Instituto Pretos Novos.
No período entre o final do século XVIII e a primeira metade do século XIX, a chegada de navios negreiros ao Rio envolvia uma complexa rede de inspeções e quarentenas. Segundo estimativas, cerca de 2 milhões de africanos foram trazidos para a cidade, e as vistorias eram realizadas por um vereador, um médico e um escrivão, que avaliavam se a embarcação representava algum risco à saúde pública.
Os registros médicos encontrados por Nara Jr. revelam que, em uma amostra de 1791, a taxa média de mortalidade a bordo era alarmante, com 8,8% dos passageiros perecendo. Esses dados mostram que muitos faleciam com a causa de morte registrada como “banzo”, mas o historiador alerta que esses diagnósticos devem ser vistos com cautela, uma vez que as péssimas condições da viagem também provocavam doenças e desnutrição.
A obra é um desdobramento de suas investigações anteriores, onde Nara Jr. já havia analisado o antigo Cemitério de Pretos Novos, resgatando histórias de vidas que foram apagadas pela história. Um caso em particular, que inclui o relato de uma recém-nascida que morreu logo após o nascimento em condições desumanas, ilustra a brutalidade enfrentada por mulheres escravizadas. A partir de sua pesquisa, o autor busca não apenas trazer à tona essas histórias, mas também dar uma voz a aqueles que foram tratados como meras estatísticas.
Para Nara Jr., a recuperação desses documentos é essencial para que possamos entender a complexa rede de relações do sistema escravagista, e a importância de resgatar a memória de vidas que foram invisibilizadas. “As pessoas que visitam o Cais do Valongo muitas vezes não compreendem a conexão com outros locais históricos da cidade. É fundamental trazer isso à luz, pois essas histórias são parte de nossa identidade”, conclui o autor, que busca, por meio de seu trabalho, uma justiça histórica e uma reparação simbólica para aqueles que sofreram nas garras da escravidão.
Crédito da imagem: Livro detalha visitas de médicos a navios negreiros



