A Praça São Lucas, na Vila Cruzeiro, voltou a ser palco de alegria e brincadeira para as crianças, quase um ano após ser marcada por tragédias durante uma megaoperação policial que resultou em 122 mortes nos complexos da Penha e do Alemão. No último Dia das Crianças, moradores decidiram resgatar a essência da praça, que se tornara um símbolo de dor e violência, promovendo uma festa para os pequenos.
A ação, batizada de Infância Raiz, foi idealizada por Celison Procópio, presidente do projeto de futebol O Melhor de Nós. Ele e o presidente da associação de moradores se reuniram para planejar uma atividade que devolvesse a diversão ao espaço, que já conhecia o riso das crianças, mas também as lembranças tristes de um passado recente. Celison acreditou que era hora de trazer de volta a alegria e tentou mudar a percepção da população sobre o local.
“A praça carrega uma história pesada, mas queremos resgatar a felicidade das crianças aqui”, afirmou. Inicialmente, o evento estava previsto para ocorrer em um campo de futebol, mas a escolha pela Praça São Lucas se mostrou significativa. O treinador recorda que, logo após a operação, muitos moradores não conseguiam se aproximar do local, lembrando do sofrimento e das perdas.
Durante a festa, as crianças puderam aproveitar atividades como pintura, futebol de sabão, queimado e até corrida do ovo. A organização, que contou com a ajuda de comerciantes e amigos, foi uma demonstração de união da comunidade, que busca superar seus traumas.
Após o evento, Celison recebeu diversas mensagens de agradecimento de pais e mães, além de pedidos para que a rua onde a festa aconteceu seja fechada aos domingos para se tornar um espaço permanente de lazer para as crianças. “Muitos pedem para participar da próxima festa, e isso me surpreendeu muito”, contou ele, visivelmente emocionado.
A ideia de transformar a festa em uma tradição no Dia das Crianças e a criação de uma área de lazer são algumas das propostas em discussão, com a intenção de oferecer mais opções de diversão para as crianças da comunidade. “Precisamos de um lugar onde todos possam brincar, não só os que jogam futebol”, destacou Celison.
Embora a festa tenha trazido um pouco de alegria, o medo ainda paira sobre os moradores da Vila Cruzeiro. “A tristeza de muitas famílias ainda está presente, e o temor de novos confrontos é constante. Não sabemos quando ou onde isso pode acontecer”, refletiu Celison.
Além de promover eventos, ele coordena o projeto O Melhor de Nós, que atualmente atende cerca de 419 crianças e adolescentes, oferecendo oportunidades por meio do esporte. “Queremos dar chance a esses jovens talentos, que precisam de apoio e reconhecimento”, concluiu.



