A trajetória dos bailes Black no Rio de Janeiro é uma parte essencial da revolução cultural que moldou as últimas décadas, especialmente entre a juventude negra. No sábado (7), o programa “Vim de lá – Bailes do Rio” trouxe à tona essa rica história com a presença de figuras icônicas como Dom Filó, Toni Tornado e Rômulo Costa. Juntos, eles recontaram como o movimento Black surgiu e se desenvolveu a partir dos anos 1970, impactando não apenas a música, mas também a moda e a afirmação da identidade negra no Brasil.
O pontapé inicial dessa transformação cultural foi a chegada da Black Music americana ao Brasil. Artistas como James Brown e Aretha Franklin fizeram sucesso entre os jovens cariocas, que então encontravam essas referências principalmente através do rádio e de discos importados. Dom Filó, um dos principais nomes do movimento, destacou a importância dessas influências na construção de uma nova forma de expressão entre os jovens negros. A frase “Black is beautiful” se tornou um mantra, simbolizando a busca por autoestima e valorização da identidade.
Toni Tornado compartilhou suas experiências nos Estados Unidos, onde teve contato com líderes do movimento negro e vivenciou o fortalecimento da luta racial. Ao retornar ao Brasil, ele trouxe uma nova postura, que desafiou os padrões pré-estabelecidos da sociedade. Sua presença na televisão ajudou a abrir espaço para um debate mais amplo sobre raça e identidade, inspirando muitos a serem autênticos.
Os bailes não eram apenas locais de diversão; eram verdadeiros pontos de encontro que promoviam a autoestima e a cultura negra. Antes da popularização das equipes de som, os jovens enfrentavam dificuldades para encontrar espaços de lazer, já que muitos clubes eram exclusividade da população branca. A partir dos anos 70, os bailes invadiram os subúrbios cariocas, reunindo milhões de jovens em uma celebração vibrante de música, dança e interação social.
Dom Filó, que ajudou a fundar a equipe Soul Grand Prix, lembrou como essa iniciativa foi fundamental para levar a Black Music ao mercado fonográfico. A equipe não apenas organizava eventos, mas também lançou álbuns que ampliaram o alcance do movimento, influenciando até mesmo a Bahia. A consciência racial estava no cerne da atuação da Soul Grand Prix, que se destacou por suas propostas inovadoras.
Rômulo Costa, por sua vez, traçou a evolução que levou ao surgimento do funk carioca. Ele contou como a Furacão 2000, inicialmente voltada ao rock, se transformou ao se conectar com o universo Black. Essa equipe se tornou um marco, reconhecida por suas famosas caixas de som brancas e sua capacidade de lançar novos talentos que, mais tarde, dominariam a cena musical brasileira.
O episódio do programa mostrou que os bailes Black foram muito além do entretenimento, representando um espaço de sociabilidade que fortaleceu a autoestima da juventude negra. A cultura que floresceu nas pistas de dança ecoa até hoje nas expressões musicais contemporâneas, como o funk, que incorporou elementos desse legado. Assim, a história dos bailes Black se entrelaça com a identidade musical do Rio de Janeiro, revelando um caminho de resistência, celebração e transformação cultural que continua a reverberar em gerações.
Crédito da imagem: Dom Filó fala sobre o surgimento do movimento black no Rio



