domingo, 01/11/2026

24° Duque de Caxias Parcialmente nublado · máx 28° mín 21°

Mãe de jovem encontrado sem vida na Penha agora apoia famílias afetadas pela violência na comunidade

Em um desabafo profundo, Tauã Brito relembra os momentos de desespero que viveu ao buscar seu filho, Wellington Brito, durante a megaoperação que resultou na morte de 122 pessoas nos Complexos da Penha e…

Compartilhe:

Em um desabafo profundo, Tauã Brito relembra os momentos de desespero que viveu ao buscar seu filho, Wellington Brito, durante a megaoperação que resultou na morte de 122 pessoas nos Complexos da Penha e Alemão em 28 de outubro de 2025. A confeiteira, que passou mais de 12 horas à procura do filho, acreditava que ainda havia uma chance de convencê-lo a se entregar à polícia. No entanto, a realidade cruel a levou a encontrar o corpo do jovem apenas na madrugada seguinte, em meio à mata.

O luto de Tauã não se limitou à dor da perda. Com o passar do tempo, ela decidiu criar o projeto Fênix, inicialmente concebido para oferecer oportunidades a jovens em risco. Contudo, a necessidade de apoio e acolhimento a mães que enfrentam a mesma tragédia levou a uma mudança de foco. A iniciativa agora se tornou um espaço de escuta e suporte emocional para aquelas que perderam seus filhos em circunstâncias de violência.

Em entrevista ao g1, Tauã relembra a manhã fatídica em que saiu de casa na esperança de encontrar Wellington. Policiais, segundo ela, dispararam na sua direção, impedindo-a de avançar. Somente à noite, depois que os agentes deixaram a área, ela conseguiu entrar e encontrar o corpo do filho. A cena, marcada por uma corda amarrada no braço de Wellington, levantou questões sobre as circunstâncias de sua morte, e Tauã se viu diante de um mar de indagações sem respostas.

As ameaças e intimidações que Tauã começou a receber após a morte do filho são um triste reflexo do clima de medo que permeia a comunidade. A mãe relata que alguns policiais chegaram a sugerir que ela deveria morrer por “alimentar vagabundos”, referindo-se a Wellington. Com o medo constante, ela decidiu deixar o Complexo da Penha, onde viveu por anos.

O projeto Fênix, que hoje reúne cerca de 35 mães, oferece um espaço para que essas mulheres falem de suas dores e compartilhem suas histórias. Os encontros, realizados a cada 15 dias, são uma oportunidade para que elas encontrem apoio e compreensão em um mundo que muitas vezes ignora suas lutas. Tauã destaca a importância de lembrar dos filhos, mesmo depois do sepultamento, e se emociona ao falar da necessidade de se expressar junto a outras mulheres que compreendem sua dor.

Recentemente, Tauã teve que enfrentar seus próprios demônios ao retornar à Praça São Lucas, um local que evitou desde a morte de Wellington. Durante um evento infantil, ela sentiu a pressão da dor, mas encontrou um pouco de alívio na alegria das crianças. No entanto, isso não apagou a lembrança constante do filho.

Além de lutar pelo acolhimento das mães, Tauã defende a necessidade de políticas públicas que ofereçam educação, cultura e oportunidades de trabalho para os jovens nas comunidades. Para ela, ações policiais violentas não são a solução para a violência que aflige a região. “O Estado entrou e matou. E o que mudou? Nada”, questiona, enfatizando que é preciso investir em alternativas que realmente façam a diferença.

A dedicação de Tauã à causa dos direitos humanos foi reconhecida quando ela recebeu a Medalha Chico Mendes de Resistência, em março de 2026, por sua coragem em denunciar a morte do filho e apoiar outras mães em situações semelhantes. Sua luta continua, e enquanto busca por justiça, também se esforça para transformar o luto em esperança e solidariedade.